O avanço dos atacarejos no Rio Grande do Sul e o papel da engenharia de custos na viabilidade desses empreendimentos

1. Introdução: o crescimento que não é pontual

O varejo alimentar brasileiro tem vivido, nas últimas décadas, transformações estruturais profundas. Entre seus segmentos, o atacarejo — formato híbrido que mescla características de atacado com varejo ao consumidor final — consolidou-se como um componente central na dinâmica setorial. Não se trata de um fenômeno transitório ou episódico, mas de um vetor de expansão cuja evolução é respaldada por múltiplos indicadores de mercado e comportamento do consumidor.

A Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), em parceria com instituições como a NielsenIQ, mostra que o atacarejo responde por uma parcela cada vez mais significativa do faturamento do varejo alimentar no Brasil. Segundo o Ranking ABRAS 2024, o segmento representou cerca de 48,3% do faturamento do setor supermercadista no país em 2023, superando os formatos tradicionais como supermercados e hipermercados em participação de receita.

No Estado do Rio Grande do Sul, essa tendência também é nítida. Levantamentos recentes indicam que, em apenas três anos, a participação do atacarejo nas vendas totais do varejo alimentar gaúcho passou de 47% para 49%, refletindo não apenas a abertura de novas unidades mas também a consolidação e maturação das operações existentes.

A expansão observada em redes como o Stok Center (Rede Comercial Zaffari), assim como o ingresso de players regionais e interestaduais, como os grupos Krolow e Via Atacadista — todos intensificando investimentos em infraestrutura — reforça que esse crescimento não é pontual, mas estrutural. Neste contexto, a engenharia de custos assume papel crítico: as decisões tomadas antes do início físico da obra influenciam diretamente a escalabilidade, a competitividade de preço e, em última instância, a sobrevivência das unidades em um ambiente de margens reduzidas.


2. O atacarejo como resposta estrutural ao comportamento de consumo

2.1 Mudança no perfil do consumidor

Conforme diversos levantamentos de mercado, o perfil de consumo brasileiro tem se modificado ao longo dos últimos anos em resposta a fatores econômicos, demográficos e comportamentais. A sensibilidade a preço tornou-se um dos principais determinantes de escolha de canal — fenômeno acentuado por períodos recentes de pressão inflacionária e estagnação de renda real. Essa realidade favorece formatos de alta eficiência de custo, nos quais o consumidor, seja pessoa física ou pequeno comerciante, encontra preços competitivos e maior variedade em uma única visita.

Estudos da NielsenIQ apontam que o formato atacarejo é um dos que mais crescem em valor de vendas e contribuição ao mercado alimentar moderno. Em 2024 e no início de 2025, o segmento apresentou taxas de crescimento de até 13,9% em valor de vendas frente ao ano anterior — superiores às observadas em outros formatos de supermercado.

2.2 Vantagens do formato atacarejo frente a outros canais

A combinação de preço competitivo e volume de vendas posiciona o atacarejo à frente de formatos tradicionais, como supermercados de bairro ou grandes redes estruturadas. Enquanto os supermercados dependem de mix amplo de serviços e conveniência logística, o atacarejo concentra esforços em oferta de preço e velocidade de giro de estoque — fatores críticos em mercados de baixa margem bruta.

Por outro lado, frente ao varejo de proximidade, o atacarejo revela vantagem pela escala e pelo poder de negociação com fornecedores, que se traduz em menores preços de aquisição e, portanto, preços finais mais agressivos ao consumidor.

2.3 Impactos na concepção dos empreendimentos

Essas mudanças no perfil de consumo implicam que a concepção física e técnica das lojas não pode mais ser tratada como um elemento secundário do projeto. Ao contrário, a engenharia e o planejamento devem antecipar demandas operacionais específicas do modelo atacarejo. A eficiência do layout, a adequação estrutural para cargas elevadas de estoque, e a robustez dos sistemas prediais são componentes que influenciam não apenas o custo de implantação, mas também o desempenho operacional e financeiro ao longo do ciclo de vida da unidade.


3. Características técnicas que diferenciam obras de atacarejo

A transposição dos requisitos mercadológicos para o campo da engenharia exige que as unidades de atacarejo sejam projetadas com parâmetros técnicos que se afastam, em muitos aspectos, dos modelos aplicados a supermercados tradicionais.

3.1 Grandes áreas construídas e layout funcional

Uma das características marcantes do atacarejo é a ampla área de piso de loja, normalmente superior àquela observada em formatos convencionais de supermercado. Isso se dá pela necessidade de abrigar grandes quantidades de produtos em exposição e em estoque, bem como facilitar a circulação simultânea de grande número de clientes e carrinhos de compra.

Do ponto de vista estrutural, isso exige soluções capazes de resistir a cargas distribuídas e concentradas elevadas, sistemas de combate a incêndio dimensionados a grandes volumes de público e instalações que assegurem conforto térmico mesmo em grandes vãos. Cada uma dessas especificações técnicas impacta diretamente o CAPEX (Capital Expenditure) do projeto.

3.2 Estruturas de grandes vãos e soluções industriais

O uso de estruturas metálicas ou treliças em concreto pré-moldado é recorrente em projetos de atacarejo em razão da necessidade de vãos livres sem colunas intermediárias, que facilitam a disposição de paletes e mercadorias. A escolha por um desses sistemas, embora mais custosa inicialmente que soluções convencionais, pode resultar em ganhos operacionais ao reduzir interferências no fluxo interno de pessoas e produtos.

A engenharia de custos deve avaliar comparativamente essas alternativas, considerando vida útil, custo de manutenção e impacto no cronograma de obra.

3.3 Pisos de alta resistência

O piso é um elemento crítico. Diferentemente de supermercados tradicionais, em que o fluxo é distribuído e as cargas de estocagem são menores, o atacarejo demanda pisos industriais com capacidade de suporte a cargas muito maiores — tanto estáticas quanto dinâmicas. A especificação incorreta pode resultar em falhas prematuras, prejudicando a operação e exigindo intervenções dispendiosas.

3.4 Instalações elétricas, hidráulicas e climatização robustas

O padrão de operação 7×24 exigido por esses empreendimentos impõe sistemas elétricos e de climatização robustos, com redundância, baixa vulnerabilidade a falhas e infraestrutura para equipamentos de alta potência (ex.: câmaras frias, sistemas de automação e iluminação de alto desempenho). Do mesmo modo, o sistema hidráulico deve ser projetado para volumes elevados de uso, incluindo áreas de serviços e sanitários públicos.

3.5 Logística de abastecimento e circulação

A concepção da obra deve antecipar as necessidades de logística e operação: docas de carga e descarga dimensionadas adequadamente, circulação de empilhadeiras ou paleteiras, acessos independentes para fornecedores e clientes, e espaço para manobra de veículos de maior porte. A engenharia de custos deve avaliar esses elementos desde a fase de estudo de viabilidade, pois cada metro quadrado adicional tem impacto direto no CAPEX e no prazo de entrega.

Erros ou negligências nesta fase inicial têm implicações financeiras diretas no negócio, pois podem comprometer prazos de abertura e a competitividade de preço da operação.


4. O desafio central: viabilizar margem em um negócio de alto giro

4.1 Margens operacionais reduzidas

Por definição, o atacarejo opera com margens brutas mais estreitas que outros formatos de varejo alimentar, apostando no volume de vendas para sustentação financeira. A margem bruta frequentemente gira em torno de poucos pontos percentuais acima do custo de aquisição das mercadorias, o que coloca enorme pressão sobre a eficiência de todos os demais custos operacionais — incluindo o CAPEX da obra.

Nesse contexto, o custo da obra não pode ser visto apenas como um gasto de capital isolado. Ele é um componente integrante da equação de retorno do investimento, influenciando diretamente o prazo necessário para atingir o ponto de equilíbrio da operação.

4.2 Sensibilidade a custo de obra, prazo e desvios

A sensibilidade do modelo a custos e prazos faz com que qualquer desvio no orçamento ou atraso na entrega tenha consequências multiplicadas no resultado financeiro do negócio. Por exemplo, um mês de atraso pode adiar o início de geração de receita e elevar custos indiretos de financiamento, reduzindo a atratividade da unidade.

Essa realidade exige um nível de previsibilidade e controle de custos atualmente esperado de grandes projetos industriais e de infraestrutura, algo ainda relativamente raro em muitos empreendimentos de varejo no Brasil.

4.3 A obra como parte estratégica do modelo de negócio

A obra de um atacarejo não é simplesmente uma etapa operacional; ela é parte integrante da estratégia competitiva da rede. Decisões relativas à especificação estrutural, ao detalhamento de sistemas prediais, ao cronograma de execução e às metodologias de compra de materiais influenciam diretamente a eficiência do ponto de venda, o custo por unidade de área construída e, em última instância, o retorno total sobre o investimento (ROI).


5. Engenharia de custos como elemento estruturante da expansão

Dadas as exigências mercadológicas e técnicas descritas, a engenharia de custos emerge como disciplina central no processo de expansão de redes de atacarejo.

5.1 Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE)

O EVTE é a primeira etapa formal em que a engenharia de custos manifesta seu valor estratégico. Diferentemente de uma simples estimativa preliminar, o EVTE considera cenários de custos, alternativas construtivas, parâmetros locacionais e condicionantes de mercado para quantificar o potencial de retorno de um empreendimento.

Este instrumento, quando bem elaborado, fornece ao investidor projeções realistas de CAPEX, OPEX (Operação Expenditure), prazos de retorno e sensibilidade a variáveis de mercado, permitindo decisões robustas antes de se comprometer com aquisições de terrenos ou início de obras.

5.2 Orçamento paramétrico bem calibrado

Na fase de prospecção, o orçamento paramétrico permite comparações rápidas entre diferentes localidades, tipologias e fornecedores, usando métricas históricas e índices técnicos de referência. A calibração desses parâmetros com dados de mercado e históricos internos de projetos anteriores é essencial para reduzir a incerteza.

No contexto de atacarejos, em que a repetição de unidades é frequente, a padronização de parâmetros possibilita maior consistência entre estimativas e reduz variações indesejadas.

5.3 Evolução para orçamento analítico detalhado

À medida que o projeto avança em maturidade, a engenharia e o controle de custos transicionam do paramétrico para o orçamento analítico detalhado. Este último desagrega cada componente de custo — mão de obra, materiais, equipamentos, logística, encargos e riscos — permitindo análises de sensibilidade refinadas e estratégias de mitigação de custos.

A adoção consistente de práticas de orçamento analítico é um diferencial competitivo, pois antecipa contingências e melhora a acurácia das projeções financeiras.

5.4 Controle de CAPEX como fator de competitividade

Em mercados de margens estreitas como o atacarejo, o controle rigoroso do CAPEX pode ser fator de competitividade. Uma obra entregue dentro do orçamento projetado reduz a necessidade de contingências financeiras, melhora a percepção de risco pelos financiadores e investe mais capital em áreas geradoras de valor — como mix de produtos e serviço ao cliente.

A engenharia de custos, portanto, não atua como contador de despesas, mas como facilitador de decisões estratégicas.


6. Expansão em escala: por que redes consolidadas investem em método

Para redes que vislumbram expansão contínua, a padronização técnica e o aprendizado acumulado são ativos fundamentais.

6.1 Padronização construtiva

Unidades padronizadas reduzem a variabilidade de custos e prazos, facilitam a negociação com fornecedores e permitem replicar melhores práticas. Esse método é particularmente eficaz em atacarejos, em que características operacionais semelhantes se repetem entre diversas localidades.

6.2 Ganho de eficiência por repetição

A curva de aprendizado construtiva é real: redes que constroem múltiplas unidades com processos semelhantes obtêm reduções de custo unitário e maior previsibilidade de prazos. Isso decorre tanto de melhorias de projeto quanto de maior familiaridade com fornecedores, equipes de obra e cenários logísticos.

6.3 Papel da engenharia consultiva no processo

Ao longo de toda a expansão, a engenharia consultiva atua como agente integrador entre projeto, orçamento, planejamento e execução. Essa atuação independente permite que a rede mantenha disciplina técnica e financeira, alinhando expectativas de mercado com decisões de engenharia.


7. Considerações finais

O avanço dos atacarejos no Brasil e, em particular, no Rio Grande do Sul, não é um fenômeno desconectado de forças estruturais de mercado. Ele reflete mudanças no comportamento do consumidor, pressões competitivas e uma busca por eficiência que se estende a todas as etapas da cadeia de valor — desde a concepção da obra até a operação do ponto de venda.

O sucesso e a escalabilidade do modelo de atacarejo começam antes mesmo da obra física. Decisões técnicas fundamentadas em engenharia de custos — como estudos de viabilidade, orçamento paramétrico e analítico, controle de CAPEX e padronização — são diferenciais estratégicos que influenciam diretamente a capacidade de competir em um mercado de margens reduzidas e alta sensibilidade ao preço.

Compreender e aplicar essas práticas de engenharia é, portanto, indispensável para qualquer empreendimento que aspire não apenas a sobreviver, mas a prosperar no cenário dinâmico do varejo alimentar contemporâneo.


Fontes e Referências

  • Ranking ABRAS 2024 – Edição setor supermercadista brasileiro (dados de participação de faturamento por formato).
    https://superhiper.abras.com.br/pdf/302.pdf, acessado em 20/01/2026.

  • NielsenIQ / ABAAS – Movimentações do atacarejo no Brasil e crescimento de vendas por formato.
    https://abaas.com.br/wp-content/uploads/2025/04/Apresentacao-NielsenIQ_ABAAS_Marco-2025.pdf, acessado em 20/01/2026.

  • Dados de participação e crescimento do atacarejo no Rio Grande do Sul, Diário Gaúcho.
    https://diariogaucho.clicrbs.com.br/dia-a-dia/noticia/2025/03/regiao-metropolitana-ganhara-ao-menos-mais-sete-atacarejos-ate-o-fim-do-ano-saiba-quais-e-onde-ficarao-50227775.html, acessado em 20/01/2026.

  • Estudos setoriais do varejo alimentar e comportamento de consumo (ABRAS e NielsenIQ).
    https://www.abras.com.br/clipping/juridico/116331/ranking-abras-2024-estudo-retrata-o-desempenho-dos-supermercadistas-brasileiros, acessado em 20/01/2026.

  • Matéria Jornal do Comércio – Coluna Minuto Varejo por Patrícia Comunello, publicada em 05 de Janeiro de 2026, página 5.
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